20/03/2014

Mentira miúda

De repente a bateria do celular acabou, aquela conversa boa que eu tinha deu lugar aos pensamentos soltos, comecei a prestar a atenção naquele papo alegre dos que estavam na lanchonete, Djavan começou a cantar que o “amor é como um raio”, e esse desafio e meu pensamento galopa em trote, troto errado, penso que perdi a mão de amar, sofria naquele momento uma dor que incomodava o tempo todo, o de amar a pessoa errada, e sofrer com essa sentimentalidade boba, queria pensar em coisas maiores, questões sociais, culturais, o que me seduzia era o mundo da minha razão, a emoção me expurgava feito um prato sujo que você não sabe quem usou e fica com nojo de reutiliza-lo, estava com nojo de mim, de ver meus 33 anos chegarem sem amor comigo, carência distorcida que eu não permitiria virar meu desejo algo efêmero, quero me tornar a pedra preciosa de alguém, não o cuspe... mas naquele instante alegria era ver os outros sorrindo, me apeguei aquele momento como se fosse meu ultimo, a lanchonete era meu céu, aquele sorriso do atendente era a minha felicidade, as cores fortes da parede representavam meu pulso, meu sangue, meu desejo, o mundo ali ficou pequeno, saí e entrei no primeiro ônibus que me veio à rua, fiz sinal e ele parou.
A motorista, uma senhora forte de poucos amigos, primeiro não quis me dizer o preço da passagem. Como eu entraria no coletivo então? Ela explicou que só se pagava na saída, achei bacana confiar em mim, então eu entrei confiante e essa é uma alegria que tenho pouco na vida...
Sentei me ao lado dela, tinha um banco pequeno, mas justo, no outro extremo da frente do ônibus, a escada de subida era no meio do ônibus, aliás, micro ônibus, cabia 25 pessoas no máximo, ar condicionado mal funcionava, em Manaus nesses dias tem andado abafado demais, um calor de todo lado, mormaço, na época das chuvas fica assim, pior...
O som do ônibus era alto, um chiado de repente deu lugar a Walter Franco cantando que “lá ia uma vela aberta se afastando pelo mar”...
Ali eram todos ameríndios, eu sempre imigrante e estranho, parecendo um estrangeiro onde quer que fosse, queria ter nascido com a cor de minha mãe, seria mais sincero da parte de Deus, mas isso é outro papo... Hoje sou um viajante do acaso dos outros querendo encontrar meu próprio cais...

O apito soou e todos bateram palma, eu que não era bobo bati também, sorria e não sabia o motivo e sorrir assim é muito gostoso, hoje era o melhor que eu poderia ter, me achei com sorte finalmente, os cílios postiços enormes daquela menina índia que me olhava, com suas tranças grossas caídas pelo ombro, num vestido simples estampadinho, linda era simplicidade, tomando seu sorvete à espera de um grande amor, eu não poderia dar nada aquela menina linda, imaginei a índia sem aqueles cílios enormes, deixei a de lado e virei meus pensamentos para meu mundo novamente, tudo estava fixo no embaralhado do meu olhar, eu bestificado por conseguir encantar-me com qualquer coisa, finalmente sorriu minha alma e minhas lagrimas eram doce feito o rio...
A musica acabou depois que saí da lanchonete,  e depois acabou no ônibus, começaram a dar notícias locais, saí do ônibus, na verdade não queria voltar para o hotel de taxi, precisava sentir o cheiro da gente que me encantava, o calor era de Manaus, estava perdido na Amazônia, que sensação gostosa...
Encontrei um homem andando e chorando, um tipo de índio forte, o cara devia ter seus 35 anos, era bonito, mas chorava sofrido, paramos esperando abrir a passagem de pedestre na rua, enquanto aquele semáforo não abria eu não resisti e perguntei se estava bem, se precisava de ajuda, ela parecia que precisava de alguém. O nome dele era Jorge e ele logo foi dizendo que a mulher dele saíra de casa, pra fazer safadeza, já tinham dois dias e não voltava, ela estava com a filha de 1 ano, a filha nem era dele, era de outra relação furtiva da esposa, ele me contou que a mulher liga pras amigas, pra combinar um passeio e quando vê, ela já se foi, ele sofre muito pois gosta muito dela, gosta demais, não consegue imaginar a vida sem aquela mulher, eu perguntei porque ele não saía e ia embora, seguir a vida, ele me falou que era engenheiro, trabalhava na região da Zona Franca, tinha uma carreira sólida, queria ir morar com o primo nos EUA, mas não tinha coragem de abandonar aquela mulher, pois depois ela sempre voltava aos braços dele, com todo carinho e chamego que ele tanto amava, eu disse a ele que era preciso ele se amar também, pois esta situação poderia se tornar perigosa, ele poderia tomar uma atitude violenta e gerar um problema maior, pois ele disse que ela o agredia e ele acabava por se tornar violento também, Jorge depois de 3 cervejas começou a chorar novamente, e saiu do bar do armando andando pela rua do teatro de cabeça baixa, indo pra casa...

Eu me perdi ali, fiquei mais de hora pensando naquele homem que não se ama e ama tanto uma mulher que o deseja vez em quando, lembrei de meu caso de amor, de minha malícia, e de meus desejos frustrados, de tudo que me oprimia, mas eu queria sorrir, e não deixar embargar um soluço de choro em mim, catei meu rumo e fui caminhar pelo mundo, segui em frente, sem norte em comum, apenas meu norte.



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