07/08/2013

Picão no Taxi

É bem verdade que ele sempre foi meio doido, de repente começou a andar, ou melhor, começou a vagar pelas ruas, acordava de manhã, ia a padaria comprar pão e leite, comia uns cinco pães de 50 gramas e sem que ninguém percebesse sumia pelo mundo: Bruno já tinha 17 anos e ainda não havia acordado para o mundo verdadeiro, seu neurologista uma vez, disse que seu retardamento era mínimo e que não haveria necessidade de medicação ou cuidados especiais e que certamente na fase adulta sua inteligência ia se sobrepor a sua pouca habilidade social e tudo estaria tranqüilo, certa vez disse a dona Joli:

- Curta bastante seu filho, pois saiba que a maioria dos meninos nessa idade são malandros demais e Jair é além de muito inteligente um ótimo garoto, saudável, amável e super inteligente nos estudos, todas as suas notas foram sempre máximas!

Um dia a dona Joli resolveu seguir seu filho, ela sabia que ele havia sofrido muito com os coleginhas da escola, sempre o caçoando de apelidos referentes a sua lerdeza, só que o rapaz era muito bonito e sempre foi muito bem visto pelas meninas mais disputadas e menos interesseiras em rapazes tipo badboy, pois sua inocência era tão saborosa que várias delas brincavam com ele dando beijinhos enquanto ela passava, ou simplesmente sussurrando elogios para que ele pudesse ouvir e ficar roxo de tanta vergonha, uma vez uma menina o levou para o banheiro durante o intervalo e sapecou-lhe a mão por entre suas calças, abriu seu zíper e começou a mexer em seu todo seu corpo, ele atordoado e ansioso gozou antes mesmo de haver qualquer tipo de afago sexual, e essa mesma menina divulgava para as outras amigas que espalhavam até para as professoras como avantajado era o órgão sexual do rapaz, seu apelido logo virou picão, o Jair Picão... E assim foi se virando pela vida e pelas meninas o Jair Picão... Mas voltando ao assunto, sua mãe naquela tarde resolveu segui-lo, ele que estava de férias escolares e nada tinha de compromisso, não gostava de computadores, desenhava lindamente, porém se alguém pedisse para ver ele simplesmente pegava desenhos toscos e grosseiros que qualquer um poderia telo feito, pois apesar de sua inocência ele sabia que as pessoas eram bem mais havidas de maldade e sagacidade que ele, e seus desenhos eram para ele seu elo com o mundo real, suas estórias narravam fatos do cotidiano de pessoas que ele nunca havia ouvido falar, contos de meninos pobres que viviam em favelas no México, desabrigados  e desastres naturais no Saara, eram enredos e contos em quadrinho, coisa boa, gibis para adulto ler... Sua mãe sempre vasculhava sua arte, mas sempre deixava do exato modo que ele as largou da ultima vez, pois sabia ele não poderia perceber o mexido e simplesmente bloquear-se...

Dona Joli andava com muito cuidado para não ser vista, pois ele andava rápido e parecia ter um objetivo ou intenção bem definida, não hesitava em dobrar a esquina, parecia que conhecia bem o trajeto, não olhava para os lados, nem para traz, Dona Joli queria a certa altura ser vista, pois percebeu que não conseguiria acompanhar o rapaz, e logo veio uma ladeira, íngreme e ainda feita de paralelepípedos, sem asfalto, ela apesar de balzaquiana sempre gostou muito de se arrumar, seu filho era bonito graças ao gene da mãe, pois o pai era horrível, baixo e sem expressão, usava uma dentadura torta com um sorriso falso desde muito novo, pois logo depois que se casou sofreu um acidente quando estava passeando de bugre nas dunas de Cabo Frio, cidade onde sempre viveram desde seus pais, e bateu com a mandíbula na barra de segurança quebrando a maioria dos dentes e ainda mudou um pouco sua forma natural de falar, era um bom pai, envergonhado pela faceta que a vida lhe aprontou na face, e para completar não havia feito seu único filho com saúde plena, apesar de sempre terem tentado ter vários filhos e filhas, era feio e sabia que sua esposa era linda quando nova, e até hoje quando saiam ao mercado ou para dar um dos raros passeios as pessoas o olhavam tipo parecendo que pensavam assim; - Filho bonito, mãe bonita, mas esse pai é feito de doer... E assim seu Jailson seguia com sua vergonha e feiúra peculiares...

O menino Jair Picão some no fim da ladeira, Dona Joli enquanto bufava sem fôlego e apoiava o corpo nos braços que por ventura se apoiavam nos joelhos abaixou a cabeça por um estante e quando levantou cadê seu filho? Nada do menino, sua sensação de mãe não era das boas, sabia de toda sua inocência e devia cuidar para que ninguém abusasse de nenhuma forma do rapaz, quando ela se preparava para desabar num choro, de repente passa seu filho num táxi a todo vapor...


Parte 1 - fim -  Continua amanhã!



André Luz Gonçalves



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