04/04/2013

Cabe amar e sofrer tanto quanto a morte!


Depois de relutar e ouvir seus irmãos ele veio, chuviscava, olhou pros dois lados da rua e atravessou, correu um pouco para que o ônibus não o pegasse, conseguiu pegar seu ônibus e seguiu seu caminho ao velório, era mais de 10 da noite e ainda tinha meia hora de viagem para chegar a capela de Santo Agostinho... 

Aquele momento não podia deixar de ser observado, sentido, compreendido, finalmente o ponto de descida chegou. Ele levantou, puxou a cigarra e deu sinal para o motorista para parar no próximo ponto. 
Desceu e correu para atravessar a rua sem a partida do ônibus e conseguiu, sendo que vinha uma moto, tirando um fino quase o surpreendeu, uma buzina fina e estridente gerou uma taquicardia, quase vai participar do velório diretamente, como sujeito principal...

Quando chegou, não sabia se cumprimentava as pessoas, se chorava, se acendia um cigarro, cigarro não! Ele havia parado de fumar, mas pensando bem este era um bom motivo para voltar. Foi ao seu irmão e pediu um cigarro, acendeu, olhou fixamente para a boca de seu pai ali deitado, como um anjo, frio e pálido, alguém que com aquela limpa imagem jamais se imaginaria fazer o mal ou magoar instintivamente, mas assim ele ficou por mais de uma hora olhando... Sem esboçar uma única reação, a tia mais velha, coitada, em prantos deixava um pedaço de sua toalhinha ainda seca imaginando que seu sobrinho mórbido a qualquer momento desabaria e cairiam em rios de lágrimas juntos, gritando e dizendo que não era verdade, e tudo o mais de ruim que se pode sentir e dizer nesse momento...

No passado do presente...

Ronaldo, Carlos e Robson eram trigêmeos e lindinhos como todos dessa espécie deveriam ser... Era uma linda manhã e os meninos tinham apenas sete anos, quando de repente um deles acordou com a voz forte de seu pai aos berros com sua mãe, não se entendiam os sentidos das palavras, todas gritadas, acordaram todos e ficaram ao pé da porta olhando e fitando por traz assustados, nunca haviam visto aquela cena, ali bêbado dando tapas e socos na cara de sua mãe, xingando aquela imaculada dona de casa dos mais sórdidos palavrões, todos estavam com muito medo, não sabiam mais o que iria acontecer. Quando de repente ele vai na direção do quarto das crianças, todos correm...

Ronaldo lembrava desse dia, e sorria em vê-lo ali, morto, ao mesmo tempo, lembrava quando o pai o carregava na carcunda, quando comprava uma garrafa de coca-cola para os três irmãos e punha um pouco d'água para render a todos, uma confusão toma conta dos pensamentos, um misto de alegria e lamento...




Um comentário:

  1. Muito bom esse conto. Acho que escrever é mesmo isso..olhar para nós mesmos, mas, fundamentalmente, olhar o mundo e ler o mundo e falar desse mundo cotidiano. Por isso que tua escrita é cada vez mais rica. Qualquer escrita auto elogiosa é empobrecer a escrita, e vemos muito disso hj em dia em "blogs" egóicos demais que nascem para puro exibicionismo e isso, nada tem a ver com literatura. O teu não..vc fala dos processos de vivência e cada vez mais literariamente, cada vez mais perto de uma escrita que vc busca. Bacana ver o processo. bj

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